Dizem alguns que o grande cineasta John Ford passou a vida filmando e refilmando a Odisseia, vista sob o seu olhar. Quantas chegadas e partidas, dos Rastros de Ódio (The Searchers) ao Outono Cheyenne... Cineastas, escritores, pintores lembram músicos ao criar temas marcantes que se repetem através das diferenças e destaques.

Quem atentar para quadros de John Nicholson como Seven suns com sete pontas de flechas e View from the bridge perceberá, com facilidade, uma trajetória de vida, das lembranças da infância em sua terra natal americana às imagens da exuberante paisagem brasileira da nova pátria que o acolheu , permeadas por suas preocupações existenciais e seu bom humor. Como em uma história em quadrinhos, sem balões, aparecem flechas de índios comanches, armas de conquistadores espanhóis, cavalos e poços de petróleo, estátuas gregas que provavelmente o pintor tenha aprendido a amar com sua mãe, que o levava, menino, a museus de arte, Pão de Açúcar e Parque Lage, gozações de americano típico feitas à França, com a Torre Eiffel enfiada em um cálice e, agora trágico, seu repúdio à guerra, que só pode, realmente, nos fazer ajoelhar e esconder, como seu personagem, o rosto entre as mãos...

Consta que John Nicholson começou sua carreira pintando figuras femininas. Quando comecei a ter contato com seus quadros, ele me parecia, porém, um ótimo pintor do Rio de Janeiro. Desfilavam ante nossos olhos Pão de Açúcar e Morro da Urca, ao sol ou na noite tinta de sangue, Marina da Glória no esplendor do meio-dia, praia de Copacabana, Arcos da Lapa talvez, Corcovado no rubro entardecer, Lagoa Rodrigo de Freitas com prédios que invadem o céu e o Parque Lage, ah! o Parque Lage... Quantas telas nos deliciaram com esta paisagem, com seu lago ou fonte, destacando-se aquela para a qual convergiam todos os olhares no evento em defesa da Escola de Artes Visuais. Em uma delas, refletindo-se no espelho das águas, como que visto do alto, o prédio que Henrique Lage construiu para a amada emerge qual templo grego e cálice frente ao morro do Corcovado e o céu do Rio.

Destaca-se muito o quadro da praia de Copacabana, talvez o mais lindo dos que Nicholson fez; não casualmente foi o escolhido para capa do livro que apresentou sua exposição no Paço Imperial. O azul do mar entremeado de espuma nos encanta, e os prédios que o ladeiam, em formas geométricas sutis, fundem presente e passado: os mais altos evocam colunas gregas. Estarei sonhando? A um canto, vejo um vulto de estátua escura encimando um pedestal como se fosse um pavio de vela.

A paisagem de Nicholson não surge como um fim em si, não fotografa a realidade objetiva, embora possamos identificá-la, mas expressa o olhar do pintor, marcado por suas vivências. E ele nos leva a viajar para os recônditos da alma humana em sua busca do entender e ser. O lago do Parque Lage, ou fonte, pode nos conduzir qual simples gato à busca do peixe fugidio. Este pequenino salmão, no alto do quadro, talvez simbolize a eterna luta do homem, nadando contra a corrente para preservar a vida; lembra o grande peixe, de outro quadro, de que parece uma miniatura. Dois olhos grandes, sob cabelos loiros, nos fitam, semiocultos entre as cores. Levei anos para perceber esse rosto feminino que se entremostra em Searching the elusive fish ; percebemos mais os dois pequenos vultos, talvez de um casal,em trajes gregos, no centro do quadro. Em Day for night, um rosto de mulher, morena, emerge mais completo de uma folha de palmeira que se alteia frente a flores vermelhas em fundo preto.

Em Chove, o Corcovado aparece em meio a nuvens e mal percebemos dois pequeninos vultos femininos abrigados sob um grande cubo preto e rosa que tenta alçar voo com a ânfora grega que o coroa. Aqui, como em muitos outros quadros, há um destaque para formas geométricas que, em certa fase do artista plástico, eliminarão por completo paisagem e humanos, mas não agora. Por enquanto, elas apenas se fazem presentes, como na porta e no rutilante cristal, formado por múltiplos pequenos cubos, que aparecem em Day for night. E, como vimos, convivem, embora ocultando-as,com figuras humanas. Em ambiente verde e vermelho, com veneziana ao fundo e colunas gregas nas laterais, o mesmo que, em outro quadro, acolherá uma enorme cabeça de estátua grega, vemos já, com alguma clareza, vultos azuis e vermelhos de mulheres deitadas.

Em contraste com Chove, na tela Horto Florestal emergem grandes quadrados de cores fortes, vibrantes e alegres, como o azul e o vermelho da cascata e das folhas coloridas e, em vez de esconder, destacam figuras, já maiores e bastante nítidas, de duas mulheres de maiô.

Interlúdio nos parece uma bela amostra das constantes que retornam como o fundo de uma música sempre presente. Colunas gregas e natureza tropical esfuziante fundem-se frente ao olhar discreto de uma figura morena, talvez de mulher, que, como da outra vez, levei muitos anos para visualizar... Uma pequena coluna grega branca como que se inclina ante colunas-tronco de árvores marrons e, sobretudo, ante uma grande coluna verde que se abre em cascata sobre folhas exuberantes de palmeira. Em meio às constantes já apontadas, parece-nos que, embora timidamente, a figura humana feminina se insinuava desde muito tempo atrás nas telas de John Nicholson. Não nos surpreende, assim, que seja agora, tantos anos passados, a essência de seus quadros, em nova e muito significativa fase do artista plástico. É como se só agora ela tivesse conseguido desabrochar na floresta de formas geométricas, paisagens, cores vibrantes com que expressa seu mundo interno tão rico esse americano no Rio de Janeiro. Deliciemo-nos com seus novos quadros ... de la femme retrouvée.

Maria Livia Marchon